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“Não se conformam que a mulher preta está com um homem branco”, diz Aline Wirley


Aline Wirley conheceu Igor Rickli quando integrava o elenco do espetáculo musical Hair, em 2010, e os dois começaram a se aproximar enquanto faziam festinhas de confraternização dos artistas do grupo. Foi aí que os dois se apaixonaram, começaram a namorar e, dois anos depois, decidiram morar juntos. O relacionamento já dura 10 anos e, neste período, eles ganharam um presente: o filho Antônio, carinhosamente conhecido como Caramelo, que hoje está com seis anos de idade.


A história do casal poderia servir de inspiração para um conto de fadas se não fosse o racismo velado (e, às vezes, explícito) da sociedade que não aceita que uma mulher preta se relacione com um homem loiro e com os olhos azuis. Em entrevista à Marie Claire, Aline diz que o casal já passou por muito preconceito, mas nunca pensou em desistir.


“Para falar a verdade, estávamos tão envolvidos no nosso amor que não percebíamos o quanto estávamos incomodando os outros. Só fomos perceber depois. Nós tínhamos uma inocência, uma ingenuidade e momentos bem complicados. O preconceito é real. Eu sentia um inconformismo de algumas pessoas por um homem branco estar com uma mulher preta. Cheguei a ouvir que o Igor era muito legal por estar comigo, acredita? Eu acho que os obstáculos só nos fortaleceram”, se empodera.


Não é de hoje que a artista sente na pele o que é viver sob o pré-julgamento. Aline se inscreveu em 2002 para um reality show junto com outras 30 mil candidatas para tentar uma vaga em uma girl band. Após seis eliminatórias, ela foi escolhida como uma das integrantes do Rouge esse tornou conhecida nacionalmente. Tempos depois, o grupo se desfez, ela enfrentou sozinha o preconceito que existe dentro da indústria fonográfica.


“Existe uma limitação artística também. De tempos em tempos, uma fórmula [estilo musical] é criada e aí só se pode fazer e produzir seguindo essa fórmula. É triste! Acredito que perdemos muito artisticamente por ter esse pensamento pequeno. Poderíamos ir tão além, mas o mercado funciona assim. Um lado bom das redes sociais e da internet, é que ela possibilitou aos artistas mostrarem o seu trabalho independentemente da indústria. E isso é maravilhoso.”


Por causa da fama, hoje em dia o racismo virou algo menos comum em seu dia a dia, mas ela ressalta que ainda existe. São nos pequenos detalhes, olhares ou nos comentários de internautas nas redes sociais que apontam para um público ainda mergulhado nos preconceitos.


É um olhar torto, um comentário maldoso nas redes sociais. O racismo existe e está presente todos os dias. A diferença é que eu não me calo. Hoje, graças à minha maturidade e esclarecimento, não deixo ninguém me diminuir. Se for preciso brigar, eu brigo. Não tenho medo de luta. Nossa luta por respeito é diário”, declara.


Com relação ao entendimento de Antônio sobre o assunto, a cantora explica que ele é pequeno para entender tudo, mas os pais já o ensinam a ter orgulho de suas duas origens e o direciona para que não sofra tantos impactos quando o racismo chegar em sua vida.


Ele sabe que é filho de um homem branco e de uma mulher preta. E que ele é branco e preto. E tentamos, através de muita conversa, explicar para ele que isso, um dia, terá algumas implicações. Como mãe, eu o quero prepara-lo para lidar com esse mundo. E, ao mesmo tempo, quero que sinta orgulho de sua origem, da história do seu pai e de sua mãe”, pontua.


Marie Claire: Você e o Igor estão casados há 10 anos. Imaginava que vocês completariam essa data? Aline Wirley: Não somos nem um pouco convencionais (gargalhadas). Aquela coisa de casar, ter filhos, casa bonitinha... Nada disso estava nos nossos planos e, ao mesmo tempo, estamos vivendo isso (risos). Nosso encontro foi mais forte do que qualquer outra coisa. Temos uma sintonia que é fora do comum. Um completa o outro e é muito gostosa a nossa troca. Se seguir do jeito que está, faremos muitos e muitos outros anos juntos.


MC: Como foi seu processo de reconexão com sua feminilidade após a maternidade? AW: Quem é mãe vai me entender. Quando o filho nasce, tudo muda. Nosso foco se move em direção àquele ser que trouxemos ao mundo. E vivemos em função dele. E isso é maravilhoso. A maternidade foi a melhor coisa pela qual passei. No entanto, chega um momento, em que nós anulamos e, se não tomarmos cuidado, viramos apenas “a mãe”. Deixamos de lado a mulher, a profissional, a esposa... e esse processo de recuperar a identidade é duro. Temos muita culpa materna e é preciso administrar esse sentimento.


MC: Essa reconexão tem a ver também com a vida sexual e o prazer? AW: Sim, com vida sexual, com prazer, com os nossos desejos como mulher. É algo profundo. Eu sou a mãe do Antônio e morro de orgulho disso, mas eu também sou a Aline Wirley cantora, a Aline filha, irmã, esposa, aquela que precisa da individualidade dela também.


MC: Como manter uma vida sexual interessante para o casal após 10 anos juntos? AW: Ah, eu e Igor somos criativos. E tem muito amor envolvido aqui. Sabemos deixar a nossa vida interessante (risos).


MC: Com quais culpas você geralmente lida, Aline? AW: A culpa materna é algo que sempre aparece. Eu tento administrar da melhor forma possível, mas a danada surge de vez em quando e me pega de surpresa (risos).


MC: O Rouge terminou. Vocês mantiveram uma amizade? AW: Sim, mantivemos. Tenho muito respeito e carinho pelas meninas. Com elas, eu mudei o curso da minha vida. Rouge me trouxe coisas muito lindas. Não sei o que teria sido de mim se não tivesse entrado na banda há 18 anos. Graças ao grupo, eu vivo hoje da minha arte, daquilo que eu amo fazer. Sou muito grata.


MC: Aliás, você já sofreu preconceito no mercado musical? AW: Muito! Muito deles ainda no Rouge. Programas de TV, rádio, muitas pessoas tinham preconceito porque nós surgimos de um programa de televisão. Duvidavam da nossa capacidade. Chegávamos para participar de algum programa e tínhamos que cantar a capela para provar que sabíamos cantar. Olha, nós passamos por poucas e boas. Recentemente, para o Indômita, eu tinha meio que tudo organizado para ter apoio nesse projeto e eu raspei a cabeça. Perdi o apoio porque tinha raspado a minha cabeça. Mas eu não me deixo abater. Transformo em força toda a adversidade.


MC: Seu novo trabalho se chama Indômita. Por que a escolha desse título? AW: Esse título tem muito a ver com as reflexões que me levaram a fazer esse álbum. Indômita tem a ver com indomável, com essa força que temos dentro de nós e que nos leva adiante. Com o tempo, fomos sendo domesticados. Fomos deixando de lado nosso instinto. Esse álbum é fruto desse mergulho, dessa reconexão com o meu instinto, com a mulher indomável que existe em mim.


MC: Por que só agora você está lançando um álbum só seu? AW: Acredito que as coisas acontecem no tempo delas. Indômita começou há quatro anos. Foi uma longa caminhada até lançarmos. No meio do caminho, surgiu a reunião do Rouge e tive que parar o processo do álbum. Após finalizarmos as celebrações da banda, eu voltei para esse processo do álbum e o finalizei. Foi praticamente uma gestação.


MC: Esse é um trabalho independente. Você sentiu dificuldade para encontrar uma gravadora? AW: É um trabalho totalmente independente. Nós bancamos tudo. Infelizmente, se você não segue uma cartilha pré-determinada, dificilmente terá uma gravadora. E, como artista, precisava colocar meus sentimentos em som. Esse álbum é exatamente o que eu queria fazer. E sinto muito orgulho dele. Mas paguei um preço por ser fiel ao meu sentimento.


MC: Você pagou um preço para fazer um trabalho como esse? AW: Tinha um apoio e o perdi. Durante esse processo do álbum, eu raspei a cabeça. Foi algo muito importante para descobrir a minha identidade, quem eu sou. Mas aquela imagem não agradou ao apoio. E ok! Segui com a ajuda do Igor, meu marido e parceiro. Nós dois fizemos tudo. Pagamos por todo o projeto.


MC: Quais são os seus desejos para 2021? AW: Quero muito fazer os shows desse álbum, mas, para isso, precisamos ter um cenário mais propício. Quero muito que essa pandemia acabe, que a gente tenha a vacina e fique protegido desse vírus. Esse é o desejo número 1. Mas quero muito trabalhar, quero fazer um novo projeto, que já estou começando a idealizar... Tenho muitos desejos para o novo ano.



Fonte: https://revistamarieclaire.globo.com/Celebridades/noticia/2021/01/nao-se-conformam-que-mulher-preta-esta-com-um-homem-branco-diz-aline-wirley.html